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Notícias da Igeja no Brasil e no Mundo

Especial
Patriarca sírio-católico no Iraque: autoridades “cúmplices” no massacre de Mossul
Caravaggio, o pintor que conseguiu iluminar a escuridão
Mundo
Nunciatura Apostólica no Iraque: “destruição de vidas humanas” sem fim
Em universidade mórmon, cardeal George exorta a trabalhar juntos
Igreja na Argentina rejeita decisão que favorece matrimônio homossexual
Responsáveis pela viagem do Papa a Portugal visitam país
Brasil: bispos expressam preocupação com construção de Usina
Em foco
Reino Unido: católicos aprendem a fazer uso da mídia à espera do Papa
Entrevistas
Sínodo da África 2009: balanço e objetivos
Peregrinação a Lourdes de políticos franceses
Espiritualidade


Evangelho do domingo: a voz da brisa
     Especial



Patriarca sírio-católico no Iraque: autoridades “cúmplices” no massacre de Mossul

Anuncia protestos nas embaixadas, em uma carta ao primeiro-ministro do país

Por Tony Assaf

BAGDÁ, quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010 (ZENIT.org).- O patriarca da Igreja Sírio-Católica no Iraque acusou as autoridades locais de cumplicidade com os autores do massacre de cristãos em Mossul, em uma carta enviada ao primeiro-ministro do país.

Sua Beatitude Mar Ignatius III Joseph Younan, de 65 anos, enviou a missiva ontem a Nuri Al-Maliki, enquanto os cristãos dessa cidade do norte do país, que moram nela há dois mil anos, empreendem o exílio por medo de perder a vida. Nos últimos dez dias, nessa localidade, foram assassinados oito cristãos.

“Enquanto lhe escrevemos – acrescenta o patriarca –, nosso coração sangra pelas trágicas notícias que nos chegam cada dia de Mossul, onde os cristãos sofrem continuamente ataques de criminosos ‘desconhecidos’. São assassinados, massacrados, ameaçados nas ruas, nas escolas e inclusive em suas casas, pelo fato de pertencer a uma religião diferente da da maioria dos habitantes da cidade.”

O último homicídio ocorreu no dia 23 de fevereiro, quando um comando armado entrou na casa de um cristão, matando o pai e seus dois filhos homens na frente da mulher e da filha, a quem os criminosos perdoaram a morte. Em Mossul, restam cerca de 17 mil cristãos.

“Mas o que é pior – continua denunciando o patriarca – é que não há ninguém que faça perguntas sobre a questão da justiça, nem sobre a questão do direito, e não há ninguém que castigue os agressores. Acreditem: quando é demais, é demais!”

“Não há consciência humana que possa aceitar esta falta de segurança em Mossul, onde se considera lícito matar inocentes e indefesos! – clama o patriarca. Estamos surpresos pelas razões aduzidas pelos funcionários do governo e do seu fracasso podemos deduzir que se dá uma cumplicidade no processo de esvaziamento da cidade de cristãos, que moram nela há séculos.”

“Levantamos nossa voz e nos perguntamos: se as forças de segurança no Iraque não puderam proteger os cidadãos inocentes e vulneráveis, por que, em nome de Deus, não dão armas aos inocentes para que possam se defender, ao invés de deixar que sejam levados ao matadouro como cordeiros?”

“O que está acontecendo em Mossul não pode ser justificado por ninguém, nem por nenhum motivo, nem pelas eleições, nem pelo trabalho, nem pelos conflitos entre partidos.”

“Sabe-se que os cristãos iraquianos jamais buscaram o poder, não atacaram ninguém e não se vingaram dos culpados. Será que não chegou a hora de que o seu governo, segundo o Estado de direito, tome medidas enérgicas e castigue os criminosos e seus cúmplices de Mossul?”

“Nós percebemos e lhes dizemos com toda clareza que a dor que oprime o coração dos cristãos no Iraque se converterá em raiva fora do Iraque, onde haverá manifestações na frente de todas as embaixadas iraquianas para condenar a insegurança dos cristãos inocentes em Mossul.”

O patriarca conclui com estas palavras: “Confiando em sua sabedoria e imparcialidade, nós lhe agradecemos”.





Caravaggio, o pintor que conseguiu iluminar a escuridão

Neste ano Roma celebra quatro séculos de sua morte

Por Carmen Elena Villa

ROMA, quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010 (ZENIT.org).- Famoso pelos contrastes de luz e sombra, pela audácia das representações, tantas vezes revolucionárias para a época. Um “chiaroscuro” (claro-escuro) que realça a humanidade das figuras bíblicas, despertando em seu tempo muitas polêmicas. Assim são as obras de Michelangelo Merisi de Caravaggio, morto há 400 anos.

Antes deste célebre artista, na história da pintura, a luz carecia de ter uma direção precisa. Na maioria das obras de Caravaggio, esse elemento chegou para realçar e iluminar arrebatadoramente a obra.

Roma presta homenagem ao pintor nascido em Milão em 1571. Atualmente acontece no museu Scudiere del Quirinale uma exposição dedicada ao artista, que reúne várias de suas obras-primas, entre elas a “Ceia em Emáus”, “São João Batista”, “A prisão de Cristo”, entre muitas outras.

Apesar da rica coleção em exposição, os organizadores não quiseram extrair das igrejas romanas várias das obras-primas de Caravaggio. Tal é o caso da “Conversão de São Mateus”, que pode se vista na igreja de São Luis dos Franceses, ou a “Conversão de São Paulo” e a “Crucificação de Pedro”, ambas na Igreja de Santa Maria del Popolo, ou a “Virgem dos peregrinos”, que fica na Igreja de Santo Agostinho.

As mostras convidam seus visitantes a ir a essas três importantes igrejas romanas para apreciar as obras que ali se encontram.

Reflexo de sua vida

As pinturas de Caravaggio podem ser classificadas em três partes: a juventude que vai de 1592 até 1599, que retrata a célebre obra do jovem com a cesta de frutas, presente nessa mostra e que pode ser vista na Galeria Borghese de Roma.

A do sucesso que vai de 1600 (ano jubilar em que vários cardeais lhe encarregaram de pintar algumas cenas bíblicas) até 1606, e a da fuga, quando o artista teve que fugir de Roma culpado por um homicídio. Esta terceira época durou até sua morte, em 1610.

“Caravaggio é atraente porque sua vida e suas obras estão estreitamente e quase necessariamente unidas”, garante Claudio Strinati, organizador da mostra.

“Viveu uma vida trágica e desesperada, transmitia uma força extrema na pintura (alguns diziam também que continha feiura), cheia de violência, tragédia, destino trágico e de desespero”, disse Strinati.

Obras que refletiam sua vida, nas que aparece seu rosto, como “Davi e Golias”, na qual, segundo os críticos, o gigante vencido é representado com seu autorretrato. Ou a “Prisão de Cristo”, onde, dentre os mesmos personagens bíblicos (Judas, João e os soldados que os capturaram), se encontra um homem com uma lanterna que, acredita-se, é ele mesmo se representando.

“A revolução está talvez no fato que o professor fala de si desde o início até o fim e interroga o espectador de como é possível ninguém tê-lo feito antes” assegura o organizador da mostra.

Pintor de quadros ao natural, Caravaggio chegou ao ponto de expressar com os gestos, o corpo e a luz, a humanidade de personagens bíblicos. Tal é o caso da obra intitulada “Coroação de espinhos”, que expressa o rosto de sofrimento de Jesus no momento da paixão conjugada com a aceitação íntima desse momento. Ou a “Adoração dos pastores”, na qual, diferentemente de muitas obras famosas que narram o mesmo tema bíblico, ressalta, no entanto, não o tom alegre, mas o tom recolhido e silencioso de seus personagens.

Duas obras sobre o mesmo tema mostram a evolução do pintor tomando uma expressão cada vez mais realista: ambas recebem o nome de “Ceia em Emáus”, a primeira, pintada em 1601 e que normalmente fica na National Gallery de Londres, mostra um Jesus sem barba, como em vários mosaicos paleocristãos. Mostra algumas frutas que não são da estação que corresponde a Páscoa (início da primavera) enquanto a segunda obra com o mesmo nome (pintada em 1606 e que normalmente fica na Pinacoteca de Brera, em Milão) exibe sobre a mesma tela uma natureza morta mais simples, uma atitude mais recolhida da parte dos discípulos e do próprio Jesus que se mostra abençoando e partindo o pão.

Devido a sua morte precoce, e ao fato de que começou ser conhecido aos 21 anos (geralmente os artistas de sua época alcançavam a fama na adolescência), Caravaggio não deixou um grande número de obras. Contudo, nos últimos anos, vários especialistas e historiadores da arte atribuíram novas obras que até o momento eram anônimas, devido à técnica que utilizava e a alguns documentos alusivos a elas que foram encontrados.

Caravaggio morreu só e abandonado no hospital Maria Auxiliadora de Porto Ercole, um pequeno povoado italiano localizada na costa Mediterrânea e que pertence à província de Grossento. Conta a história que foi sepultado às pressas em uma vala comum. Logo foi esquecido, ao contrário do que aconteceu com vários artistas que começaram a ser valorizados logo depois da morte. Suas obras começaram a ser mais reconhecidas no começo do século XX. Por esse motivo, atualmente há muitas lacunas na pesquisa sobre sua biografia e obras.

Um pintor que transmitiu o “claro e escuro, realizando uma pintura capaz de expressar em uma dimensão real o dramático desenvolver da representação, exaltando os valores espirituais dos conteúdos com uma certeza que não tem igual”, disse Francesco Buranelli, membro da Comissão Pontifícia de Bens Culturais.





Mundo



Nunciatura Apostólica no Iraque: “destruição de vidas humanas” sem fim

Pede por maior pressão por parte da opinião pública mundial

ROMA, quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010 (ZENIT.org). – “A longa lista de assassinatos no Iraque parece que não terá fim. Este massacre de vidas humanas desperta horror”. É o que diz a Nunciatura Apostólica do Iraque em um comunicado divulgado nessa quarta-feira.

“Os cristãos são cada vez mais alvo” de violências: “assassinatos, sequestros, depredações de igrejas” – as comunidades cristãs de Mossul têm sido duramente atingidas, apesar de sua postura unanimamente reconhecida como pacífica”.

O número de vítimas cristãs em Mossul apenas nos últimos dez subiu para oito, após o assassinato de um homem e de seus dois filhos.

“Tem-se a impressão” – diz a nota – de que o motivo para os ataques a estas minorias é apenas sua fé religiosa ou sua etnia. Muitos cristãos têm medo de continuar a viver numa região onde estão presentes a dois mil anos”.

“Estão pisoteando seu incontestável direito à plena cidadania, forçando-os pela violência a abandonar suas casa e fugir”.

“Conforme declararam recentemente os bispos de Mossul, os cristãos se sentem indesejados em sua própria pátria, o local onde nasceram”.

“Mais do que nunca, faz-se necessário orar ao Senhor da Paz: apesar de todas as provações, os cristãos continuam a resistir à tentação de abandonar seu país, decididos a dar sua contribuição pelo bem comum e pela reconstrução de sua Nação”.

“Para isto, no entanto, precisam urgentemente de socorro” – sublinha a nota – “é especialmente necessário que a pressão da opinião pública mundial não enfraqueça, para que toda esta violência chegue ao fim”.

“Muita confiança é depositada na atenção e na solidariedade da comunidade internacional, para que erga sua voz por aqueles que já não têm voz”.

“Por outro lado, espera-se que as autoridades locais tomem todas as medidas que estiverem a seu alcance a fim de garantir aos indefesos a proteção a que têm direito por força de sua cidadania iraquiana, a qual jamais traíram”.

“Os cristãos pedem por poder viver suas vidas em tranquilidade, e professar sua religião com segurança, condições básicas para qualquer civilização”, conclui a nota.





Em universidade mórmon, cardeal George exorta a trabalhar juntos

Pede por colaboração entre mórmons e católicos na defesa de valores comuns

PROVO, quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010 (ZENIT.org). – O presidente da Conferência Episcopal dos EUA, cardeal Francis George, atraiu uma multidão para sua conferência na Universidade Mórmon de Brigham Young, na qual declarou que mórmons e católicos devem unir-se na defesa de valores comuns.

O arcebispo de Chicago falou a um grupo de cerca de doze mil pessoas, reunidas na Tribuna Salt Lake.

O cardeal se disse muito satisfeito em observar que "depois de um período de 180 anos – a maior parte dos quais separados uns dos outros – católicos e ‘santos dos últimos dias’ possam reconhecer-se uns aos outros como parceiros de confiança na defesa de princípios morais comuns”.

Entre os valores compartilhados, o purpurado destacou a defesa dos não nascidos e do matrimônio tradicional, assim os esforços no combate à pobreza.

O cardeal fez referência à proibição do “matrimônio” entre pessoas do mesmo sexo no Estado da Califórnia, um caso em que a união entre católicos e mórmons ajudou a obter êxito nas votações.

Mencionou também que mórmons e católicos têm posições semelhantes em relação ao direito da religião ter espaço nas discussões de temas públicos – o cardeal publicou há poucos meses um livro sobre o assunto.

O cardeal George afirmou que a liberdade de religião vai além da liberdade de culto ou de consciência, e inclui “o direito de exercer influência sobre o espaço público”.





Igreja na Argentina rejeita decisão que favorece matrimônio homossexual

BUENOS AIRES, quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010 (ZENIT.org).- O cardeal arcebispo de Buenos Aires, Jorge Bergoglio, manifestou nessa quarta-feira em comunicado sua rejeição à decisão judicial que autoriza o casamento entre duas pessoas do mesmo sexo. Ele pediu ao governo da capital, liderado por Mauricio Macri, que apele da decisão da juíza Elena Liberatori.

O comunicado do cardeal Bergoglio afirma: “A legislação civil argentina rege o matrimônio como uma entidade civil integrada por um homem e uma mulher. Portanto, a sentença de uma juíza que permite um vínculo matrimonial entre pessoas do mesmo sexo é contrária à citada na legislação”.

“Dado que, desde tempos antigos o matrimônio se entende como a união entre um homem e uma mulher, sua reafirmação não implica discriminação alguma”, afirma. “Dado que o Poder Executivo da cidade autônoma de Buenos Aires é responsável pela garantia da legalidade na cidade, o chefe de governo, através do Ministério Público, tem a obrigação de recorrer da sentença”, finaliza o comunicado.

(Nieves San Martín)







Responsáveis pela viagem do Papa a Portugal visitam país

Delegação dirigida por Alberto Gasbarri teve três dias de reuniões

LISBOA, quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010 (ZENIT.org).- A equipe do Vaticano responsável pelas viagens do Papa encerrou nesta quinta-feira uma viagem de três dias a Portugal, destinada a estudar questões de segurança e de organização da visita de Bento XVI, em maio.

Segundo informa o site oficial da visita do Papa a Portugal, na terça-feira, a equipe do Vaticano, dirigida pelo dr. Alberto Gasbarri, e que incluía, entre outros, um responsável da segurança e uma representante da Alitália, esteve reunida em Lisboa, junto da Nunciatura, com membros da Comissão Organizadora da Visita, dirigida por Dom Carlos Azevedo, bispo auxiliar de Lisboa.

O grupo do Vaticano teve depois uma reunião de trabalho no Ministério dos Negócios Estrangeiros com representantes do Protocolo de Estado e das forças de segurança (PSP e GNR).

Na quarta-feira, a equipe esteve em Fátima e na cidade do Porto, reunindo-se com os responsáveis locais pela organização e segurança da visita. Nesta quinta-feira aconteceu uma reunião de balanço destes três dias de trabalho em Portugal.

Celebrações

O responsável pelas celebrações litúrgicas pontifícias, monsenhor Guido Marini, vai estar em Portugal entre 8 e 10 de março para visitar os locais onde vão decorrer os atos litúrgicos incluídos na viagem de Bento XVI.

Monsenhor Guido Marini vai acompanhar a preparação das celebrações e assistir a alguns dos ensaios.

Bento XVI celebra Missas em Lisboa (dia 11 às 18h15 no Terreiro do Paço) e no Porto (dia 14 às 10h15 na Avenida dos Aliados) e preside à Missa da Peregrinação Internacional Aniversária no dia 13, às 10h, em Fátima.

No dia anterior, 12 de maio, vai estar na Capelinha das Aparições (17h30) e na oração de Vésperas na Igreja da Santíssima Trindade (18h), bem como na recitação do Rosário e Procissão de Velas (21h30), sendo a Eucaristia presidida pelo cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado do Vaticano.

O Papa Bento XVI visita Portugal entre 11 e 14 de maio, com passagens por Lisboa, Fátima e Porto.





Brasil: bispos expressam preocupação com construção de Usina

Belo Monte afeta pessoas que residem na região e o meio ambiente

BRASÍLIA, quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010 (ZENIT.org).- A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) manifestou sua preocupação com a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, na região do Rio Xingu (Pará, norte do país), uma obra que, segundo o episcopado, traz “graves consequências” para as pessoas que residem na região e o meio ambiente.

Os bispos dirigentes da CNBB, que compõem o Conselho Episcopal de Pastoral, divulgaram esta quinta-feira uma nota sobre o tema, após a decisão do IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) de conceder licença prévia, permitindo o leilão para a construção e exploração da Usina.

A nota recorda que “dados de pesquisadores e estudiosos da Amazônia comprovam que são previstos 1522km2 de destruição, sendo 516km2 de área inundada e 1006km2 de área que secará com o desvio definitivo da Volta Grande do Xingu.”

“Soma-se a isso o desalojamento de milhares de famílias da cidade de Altamira e das áreas ribeirinhas e indígenas”, afirma o texto.

Segundo a CNBB, “não é a primeira vez que, no Brasil, projetos desse tipo trazem graves consequências tanto para as pessoas que residiam na região quanto para o meio ambiente, deixando até hoje uma grande dívida social para com os atingidos por barragens”.

“Belo Monte é, nesse momento, emblemática, visto que o processo não levou em conta os povos indígenas, os ribeirinhos e os que residem em bairros de Altamira, que serão certamente os primeiros prejudicados. Não levou em conta, igualmente, as considerações técnicas feitas por cientistas, a argumentação do Ministério Público Federal e as ponderações de movimentos sociais.”

“Almejamos em nosso país um desenvolvimento que tenha por base o respeito à vida, a participação efetiva das pessoas na discussão e decisão dos projetos e a garantia de que serão realmente beneficiadas, sem graves impactos prejudiciais à vida do povo e ao meio ambiente”, afirma a nota.

Os bispos lamentam que “órgãos governamentais, entidades e pessoas que se dizem de acordo com esses parâmetros, os neguem na prática, como ocorre nessa etapa que prepara a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. Não é possível apoiar processos que ameaçam a vida de comunidades tradicionais e de outros habitantes da região e agridem, desrespeitam e destroem o meio ambiente”.

“Diante da gravidade da situação, queremos sensibilizar a sociedade e esperamos que as autoridades brasileiras tomem as devidas providências a fim de que não tenha início a execução do projeto antes de proporcionar reais oportunidades para que as populações implicadas possam debatê-lo, apresentar suas propostas e tenham suas considerações respeitadas”, afirma o texto da CNBB.





Em foco



Reino Unido: católicos aprendem a fazer uso da mídia à espera do Papa

Projeto busca promover uma cobertura positiva do evento

LONDRES, quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010 (ZENIT.org). – Ao se consultarem os jornais ingleses de algumas semanas atrás, tem-se a impressão que Bento XVI seria contrário à igualdade de direitos na Inglaterra.

O discurso proferido pelo Papa em 1º de fevereiro aos bispos do Reino Unido em Roma, por ocasião de sua visita quinquenal “ad limina apostolorum”, estaria “atacando” a lei de igualdade do país.

De fato, o pontífice tratou da lei natural e da liberdade dos grupos religiosos de agirem segundo suas crenças. Os ativistas pelos direitos dos homossexuais expressaram sua contrariedade, e os diversos veículos de comunicação divulgaram suas opiniões.

Esse tipo de resposta por parte da imprensa é justamente o que a iniciativa Catholic Voices da União Católica da Grã Bretanha buscará prevenir quando o Santo Padre estiver em visita ao Reino Unido em setembro.

Será uma cobertura “autorizada, mas não oficial”, divulgada por porta-vozes católicos “idôneos e preparados”, para tratar com a imprensa a respeito do que o Papa realmente está dizendo.

Preparados para os holofotes

Cerca de 25 pessoas estarão preparadas por especialistas nos temas mais polêmicos que provavelmente atrairão a atenção da mídia durante a visita papal”, explica o grupo em uma declaração.

“Ao longo dos próximos meses”, estas pessoas “participarão também de seções preparatórias” sobre diversos aspectos da mídia, e concluirão sua preparação com um retiro na abadia de Worth.

O Catholic Voices é um órgão independente da Conferência Episcopal, mas conta com sua aprovação.

O projeto é promovido pelo presidente da União Católica da Grã Bretanha, Lord Daniel Brennan, e pelo abade de Worth, Christopher Jamison.

A declaração faz notar que no mesmo dia 1º de fevereiro, uma outra mensagem do Papa não recebeu a mesma atenção.

De fato, Bento XVI convidou os bispos a insistirem em seu direito de “participarem do debate nacional através de um diálogo respeitoso com os demais elementos da sociedade” e a recorrerem aos fiéis leigos da Inglaterra e País de Gales, para que se possa transmitir a fé às próximas gerações, com a convicção que assim estarão desempenhando seu próprio papel na missão da Igreja”.

De acordo com o abade Jamison, “o discurso do Papa Bento XVI aos nossos bispos serviu para demonstrar a importância deste projeto”.

A mídia como instrumento

Catholic Voices não navegará por águas desconhecidas.

Jack Valero e Austen Ivereigh coordenarão o projeto, em colaboração com Kathleen Griffin, ex-produtora da BBC com vasta experiência em comunicação. Valero e Ivereigh também já coordenaram outro projeto semelhante, o “Grupo de Resposta ao Código da Vinci”.

O “Grupo de Resposta ao Código da Vinci” foi capaz de oferecer uma cobertura positiva das atividades da Igreja partindo da versão enganosa dos fatos apresentada no best-seller. Isto mostra o que é possível obter sem recorrer a agressões defensivas”, explicou o abade Jamison.

O projeto divulgou uma declaração de alguém que promete ser uma estrela na visita papal: o cardeal John Henry Newman, que espera-se venha ser beatificado pelo Papa durante sua visita à Inglaterra.

O cardeal Newman expressou certa vez seu desejo de um “laicato não arrogante nem precipitado em suas palavras, mas de homens e mulheres que conheçam sua própria religião, que se integrem a ela, que saibam seu papel, que compreendam as posições que sustentam e as que não sustentam, que conheçam seu credo tão bem a ponto de dar-lhe razão, e que saibam história suficiente para que possam defendê-lo. Desejo um laicato inteligente e instruído – desejo (...) ampliar seu conhecimento, para que aprenda a ver as coisas como são, para que compreendam que fé e razão se completam, para que entendam as bases e os princípios do catolicismo”.





Entrevistas



Sínodo da África 2009: balanço e objetivos

O Pe. Musoni explica o espírito da 2ª Assembleia Sinodal

Por Mariaelena Finessi

ROMA, quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010 (ZENIT.org).- Quatro meses depois da 2ª Assembleia Especial para a África, do Sínodo dos Bispos, realizada em Roma em outubro de 2009, Aimable Musoni – salesiano ruandês que participou do encontro em qualidade de especialista – compartilha com a Zenit um balanço das conquistas sociais alcançadas no continente nos últimos quinze anos, graças ao catolicismo.

Consultor da Congregação para as causas dos Santos e da Congregação para a Doutrina da Fé, Musoni explica também os próximos passos para concretizar as conclusões às quais os padres sinodais chegaram.

-Comecemos pelo tema do sínodo, realizado no último mês de outubro: “A Igreja na África ao serviço da reconciliação, da justiça e da paz”.

Musoni: É um tema muito atual e que envolve todos, desde os pastores até o último dos fiéis.

Em particular, os padres sinodais falaram da vida consagrada, porque se espera muito do seu testemunho e da sua função profética, para não renunciar nem perder os valores cristãos em todas estas circunstâncias de extrema pressão que atingem o continente, como as guerras, a pobreza, as doenças e a fome.

Outro tema foi a necessidade de reconciliação: só reconciliados com Deus podemos nos reconciliar entre nós e ser testemunhas da reconciliação na sociedade.

Um aspecto sobre o qual também se chamou a atenção foi o dos políticos católicos, para que atuem na sociedade e pela sociedade, guiados por uma coerência cristã, que facilite também a boa convivência.

-Apesar de alguns progressos conseguidos no âmbito sociopolítico, econômico e cultural, continua sendo difícil saber como os resultados do sínodo encontram ou encontraram uma aplicação real na África.

Musoni: Sim, é difícil calcular os resultados de forma precisa. De qualquer maneira, com relação a 1994, ano do 1º sínodo, registrou-se um crescimento notável do catolicismo no continente, cujos membros passaram de 102 milhões (equivalentes a 14,6% da população africana) a 164 milhões (17,5%).

Igualmente, aumentaram os consagrados, missionários leigos, catequistas e seminaristas, assim como as estruturas eclesiásticas para a evangelização, os hospitais, escolas, seminários e rádios locais (estas últimas passaram de 15 a 163).

-Se os dados falam de um crescimento dos católicos, o diálogo ecumênico e inter-religioso ainda continua sendo um desafio delicado frente à proliferação das seitas, que continuam fascinando...



Musoni: O Evangelho não chegou a todos os lugares e, onde não há católicos, as chamadas “religiões tradicionais africanas” criaram comunidades eclesiais indígenas com uma fisionomia de seitas: já não cristãos em sentido próprio, mas tampouco pagãos.

Experiências sincretistas evidenciam dois significados: em primeiro lugar, mostram como o africano é religioso de forma incurável; em segundo lugar, destaca por que as pessoas se afastam das igrejas oficiais, nas quais se corre o risco do anonimato por causa de suas grandes dimensões, que não favorecem o contato pessoal.

Mas os católicos já estão respondendo, com o nascimento de movimentos juvenis e comunidades eclesiais de base, consideradas “pequenas comunidades cristãs”, nas quais se encontram para rezar, compartilhar informações e tomar iniciativas comuns para ajudar os que passam necessidade.

-Parece, então, que existe uma distância inicial entre a Igreja e os africanos...

Musoni: Eu diria que é um problema que pode se apresentar em qualquer lugar. Mas, de qualquer maneira, é verdade, sim. Na África às vezes houve essa falta de atenção por parte dos missionários, em sua maioria ocidentais, que no começo suspeitavam demais da cultura africana, às vezes afirmando que não existia, de fato, uma cultura.

Isso levou a criar uma espécie de tabula rasa, na tentativa de “arrancar o diabo destes pobres que cresceram nas trevas”, como diziam os missionários entre 1500-1800.

Da evangelização se chegou à teologia da adaptação, buscando nexos com a cultura africana. O próximo passo foi a inculturação, para ir ao encontro da herança cultural africana, para que esta oferecesse um próprio canal interpretativo do catolicismo e assim, por exemplo, produziu-se a introdução da dança na liturgia.

Hoje, o africano pode expressar seu ser na Igreja, também através do corpo. A inculturação, nesse sentido, ajudou a purificar os valores africanos para assumi-los como veículo do cristianismo.

-Em algumas culturas africanas, a castidade e a pobreza não são valores, enquanto a riqueza sim, como sinal de bênção dos deuses; a esterilidade – atribuída somente à mulher – legitima o divórcio, enquanto morrer sem deixar descendência é sinal de maldição. Que consequências tem para a sociedade enfatizar esse tipo de família?

Musoni: Os cristãos, particularmente os religiosos africanos, vivem certa tensão com relação aos valores e tradições culturais do seu país.

Por exemplo: nossa concepção da vida tem um valor antropológico amplo, segundo o qual ela é entendida como “continuidade”; para o africano, a transmissão da vida através dos filhos significa também a continuação da vida de quem já não está; e não poder fazê-lo é como permanecer à margem da sociedade. Na Ruanda, por exemplo, morrer sem casar-se ou ter filhos significa praticamente desaparecer.

Mas também nesta concepção africana da vida existe um sentido religioso, porque o antepassado recebeu a vida de Deus e a transmitiu. Mas há apêndices negativos porque, para reforçar a própria vida, no Congo, por exemplo, é legítimo tirar a dos outros.

O mesmo vale para a poligamia, vista como um reforço da família: ter tantos filhos significa ter força de trabalho e força defensiva nas guerras tribais e, neste sentido, o casamento é uma aliança com as famílias das esposas.

É uma visão complexa, que frequentemente põe em perigo o reconhecimento da excelência e do valor da vida cristã e/ou consagrada.



-Precisamente com relação aos religiosos, o sínodo recomendou um atento discernimento dos candidatos à vida consagrada, enquanto para os institutos internacionais presentes na África, os padres sinodais pediram que a formação inicial – postulantado e noviciado – seja realizada na África. Por que esta petição?

Musoni: Pessoalmente, penso que os religiosos devem aprender a lidar com a natural dimensão afetiva na castidade, entendida como celibato e virgindade, dirigindo o sentimento da paternidade/maternidade, que para os africanos é particularmente forte, por outro caminho, sendo “pais” e “mães” na tarefa de educar o povo de Deus.

Para que não haja um choque, é preciso converter-se de verdade, mas em terra africana, onde se pode provar realmente a convicção da vida religiosa e encarregar-se, portanto, das responsabilidades derivadas da escolha vocacional livremente assumida.

Ter de adaptar-se a uma cultura nova, que é a europeia, e ao mesmo tempo ter de amadurecer a própria escolha vocacional não ajuda, de fato, a fazer no próprio interior uma síntese harmônica.

-No Instrumentum laboris está escrito que as consagradas contribuem para revelar mais certa dimensão de Deus, mediante seu gênio feminino de doçura, ternura e disponibilidade. De que maneira a mulher realiza esta função privilegiada? E como poderia contribuir mais para a missão evangelizadora?

Musoni: São as mulheres que levam a família adiante na África, assim como a educação. Esta é uma função importante, que a Igreja também deve reconhecer. Elas já estão presentes nas paróquias e nas comunidades eclesiais de base: trata-se de reconhecer oficialmente esta função, valorizando-a.

E, indo mais longe, será possível contribuir, dessa forma, no reconhecimento e na proteção da dignidade da mulher na cultura africana em geral. Por exemplo, a poligamia certamente não honra a mulher, pelo menos na visão cristã.

Com relação à exploração, é conhecida a função subordinada das esposas na organização familiar, que pode ser substituída, no entanto, por uma colaboração que, ainda que não seja paritária, pelo menos respeite as capacidades pessoais.

A Igreja, segundo o desejo dos padres sinodais, dando à mulher as responsabilidades também nos órgãos de decisão, poderia oferecer o melhor exemplo.





Peregrinação a Lourdes de políticos franceses

Segunda edição dirigida pelo padre Rougé

Por Anita S. Bourdin

ROMA, quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010 (ZENIT.org).- Está sendo preparada a segunda edição da peregrinação a Lourdes para cristãos de vida pública francesa, coordenada pela associação Chrétien élu public.

Com iniciativa de vários parlamentares, a primeira peregrinação aconteceu em 2009. A edição de 2010 está para ser lançada. O padre Matthieu Rougé comprometeu-se a apresentá-la aos leitores de ZENIT.

Pe. Rougé, pároco da igreja de Santa Clotilde em Paris, é professor de Teologia na Faculdade Notre Dame (Colégio dos Bernardinos). É também diretor do serviço pastoral de estudos políticos. Nesse âmbito, assegura a presença da Igreja entre os deputados e senadores.

–Como nasceu a ideia dessa peregrinação?

–Pe. Matthieu Rougé: Alguns parlamentares disseram que, entre as numerosas peregrinações propostas a Lourdes, era uma pena que não havia uma proposta específica para os políticos. Em ocasião dos 150 anos da primeira aparição de Maria a Bernadette, em 11 de fevereiro de 2008, estavam em Lourdes trinta parlamentares: foi para eles a ocasião de apresentar seu projeto a monsenhor Perrier e receber seu alento. O modelo adotado foi o de “congressos-peregrinações” dos médicos, que une atualização, reflexão e partilha. Foi definido em seguida convidar os políticos de todos os cargos: âmbitos municipal, departamental, regional, nacional e europeu. O caráter universal de Lourdes levou com naturalidade a abrir-se para os eleitos de outros países.

-Quais são as reações e os frutos?

–Pe. Matthieu Rougé: A primeira edição da peregrinação “cristã política” foi um verdadeiro momento de graça, reunindo mais de uma centena de políticos ao redor de intervenções repletas de conteúdo - monsenhor Perrier, monsenhor Brouwet, padre Quénardel, o abade de Citeaux... -, em clima de grande fraternidade, para qualquer que for o nível de responsabilidade de cada um (vereador de um povoado de duzentos habitantes ou um antigo membro do Governo...). Todos expressaram o desejo de que a proposta se renovasse no ano seguinte. No impulso da primeira peregrinação a Lourdes e para preparar a seguinte, foram desenvolvidas reuniões locais de políticos, nas dioceses de Havre, Angers, Paris, por exemplo.

–O grupo de amizade França-Santa Sé do Senado acaba também de fazer uma viagem a Roma: quer dizer que a “laicidade positiva” está fazendo seu caminho?

–Pe. Matthiu Rougé: Há que se distinguir o plano institucional, em que se situam os grupos de amizade da Assembleia e do Senado, e o caráter principalmente espiritual da peregrinação a Lourdes.

No primeiro caso, parlamentares de opiniões mais variadas se encontram com os responsáveis do Vaticano praticamente como fariam com outros Estados; no segundo, os políticos enraizados na fé ou em busca de suas raízes mais profundas têm um tempo de oração e de reflexão, à Luz do Evangelho. Dito isto, todos manifestam seu interesse pela palavra da Igreja, especialmente com os crescentes desafios enfrentados, cada vez mais difíceis (bioética, migrações, educação...).

Apesar das divergências persistentes em uma parte da sociedade francesa, há de fato uma liberdade nova em relação às questões espirituais e às luzes que a fé pode trazer a problemas éticos.

–Qual resultado esperar? Também para a Europa: o presidente Hans-Gert Pöttering acaba de participar da apresentação no Vaticano da mensagem de Quaresma de Bento XVI, por convite do cardeal Paul Joseph Cordes, e evocou os laços entre parlamentares cristãos no Parlamento europeu...

–Pe. Matthieu Rougé: É verdadeiramente importante que os responsáveis da cidade tenham, apesar do ritmo acelerado imposto por suas atividades, ocasiões de atualização, de formação e de fraternidade: sem vida espiritual é difícil ser perseverante, valente, audaz na esperança e na caridade; sem formação é impossível realizar discernimentos éticos verdadeiramente bem sucedidos; sem ocasiões de fraternidade, sente-se rapidamente isolado. Em contrapartida, quem vive verdadeiros momentos de atualização, de formação e de fraternidade sente-se tocado.

–O que reserva a edição 2010 e como se inscrever?

–Pe. Matthieu Rougé: A peregrinação 2010 acontecerá de 8 a 11 de abril. Os principais conferencistas são: Dom Dagens, cardeal Barbarin e Marie-Hélène Mathieu. Dom Claude Dagens, bispo de Angouleme, membro da Academia Francesa, falará sobre “O futuro cultural e cultura das Igrejas e da Igreja na França”; Marie-Hélène Mathieu é a fundadora da Oficina de Deficientes, de Fé e Luz, e da primeira peregrinação de pessoas com deficiência a Lourdes em 1971; o cardeal Philippe Barbarin, arcebispo de Lyon, irá propor uma reflexão sobre “Igreja, servidora de todas as pessoas”.

Um intercâmbio entre todos os participantes sobre a primeira encíclica social de Bento XVI, Caritas in veritate, será introduzida com um debate entre três parlamentares de diferentes correntes políticas.

A organização dessa peregrinação está coordenada pela associação Chrétien élu public, que convoca também encontros de cargos políticos locais. Está presidida por Charles Revet, senador de Seine-Maritime.

Existe a possibilidade inscrições online no link: http://spep.typepad.fr/spep/.





Espiritualidade



Evangelho do domingo: a voz da brisa

Por Dom Jesús Sanz Montes, ofm, arcebispo de Oviedo

OVIEDO, sexta-feira, 25 de fevereiro de 2010 (ZENIT.org).- Apresentamos a meditação escrita por Dom Jesús Sanz Montes, OFM, arcebispo de Oviedo, administrador apostólico de Huesca e Jaca, sobre o Evangelho deste domingo (Lc 9, 28b-36), 2º da Quaresma.

* * *

Não é somente a voz do tentador que chega até nós. Há também outras vozes que o próprio Deus nos sussurra na hora da brisa. Esta é a belíssima cena do Evangelho deste domingo.

Em um entardecer qualquer, Jesus leva Pedro, João e Tiago ao Monte Tabor para orar. Talvez fosse a oração da tarde, como era costume entre os judeus. E então ocorre o inesperado. A tripla atitude diante do que aconteceu é tremendamente humana e nela podemos facilmente nos reconhecer: o cansaço, o delírio e o temor.

Também nós, como aqueles três discípulos, experimentamos um sopor cansativo diante da desproporção entre a grandeza de Deus e nosso permanecer como alheios (“estavam com muito sono”). Inclusive, ébrios da nossa desproporção, chegamos a delirar, e dizemos coisas que têm pouco a ver com a verdade de Deus e nossa própria verdade (“não sabia o que estava dizendo”). E quando, apesar de tudo, vemos que sua presença nos envolve a abraça, dando-nos o que não esperamos nem merecemos, então sentimos confusão, medo (“ficaram com medo ao entrarem dentro da nuvem”).

O Tabor, onde os três discípulos veriam a glória do Messias, é contraponto do Getsêmani, onde os mesmos se angustiarão diante da dor agônica do Redentor. Como âmbito exterior: a nuvem e a voz de Deus. Como mensagem: ouvir o Filho amado. Como testemunhas: Elias e Moisés, preparação da plena teofania de Deus na humanidade de Jesus Cristo.

Ouvir a palavra do Filho amado, derradeiro porta-voz das falas do Pai, foi também a mensagem no Batismo de Jesus: escutai o que Ele diz. Um imperativo salvador que brilha com luz própria na atitude de Maria: faça-se em mim segundo a tua palavra. Ela guardará a palavra em seu coração, ainda que não a entenda; e convidará os serventes de Caná a fazerem o que Jesus disser; e, por isso, Ele a chamará de bem-aventurada: por ouvir a Palavra de Deus cada dia e vivê-la. Inclusive ao pé da cruz, onde pendia a morte, Maria continuou fiel, pressentindo a pulsação ressuscitada da vida.

O delírio de Pedro, devedor do seu temor e do seu cansaço, proporá fazer do Tabor um oásis no qual descansar seus sonhos, entrar em sensatez e livrar-se dos seus medos. Mas Jesus convidará a descer ao vale do cotidiano, onde no cada dia somos reconciliados com o extraordinário e implacável realismo. A fidelidade de Deus continuará nos envolvendo, com nuvens ou sol, dirigindo-nos sua Palavra, que continuará ressoando na Igreja, no coração e na vida.




Data :- 26/02/2010


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