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Notícias da Igreja no Brasil e no Mundo

Santa Sé
Bento XVI pede “evangelização mais profunda” na África
Papa envia a “confortadora” bênção apostólica ao povo chileno
Sacerdotes devem ajudar a viver a novidade da graça
Na pastoral dos ciganos: integração, mas sem homologação
Mundo
Cáritas: não à exploração do trabalho doméstico
Igrejas buscam acordo para a Europa oriental
Entrevistas
Como nasceu o livro “História de uma amizade”
UNESCO: política e religiões diante do futuro
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     Santa Sé



Bento XVI pede “evangelização mais profunda” na África

Ao receber os bispos da Uganda em visita “ad limina”

CIDADE DO VATICANO, sexta-feira, 5 de março de 2010 (ZENIT.org).- A evangelização renovada dá lugar a uma cultura mais católica, afirmou Bento XVI hoje, ao receber os bispos da Uganda em visita ad limina apostolorum, no Vaticano.

“A evangelização renovada dá lugar, por sua vez, a uma cultura católica mais profunda, que está arraigada na família”, disse-lhes.

Neste sentido, indicou que “um grande bem pode vir dos leigos bem preparados que são ativos nos meios de comunicação, na política e na cultura”.

Sobre a família, o Papa constatou a “necessidade de incentivar os católicos da Uganda para valorizarem plenamente o sacramento do matrimônio em sua unidade e indissolubilidade, e o direito sagrado de viver”.

Falando da cultura em termos mais gerais, instou os bispos a ajudarem os sacerdotes e leigos a resistirem “à sedução da cultura materialista do individualismo, que se enraizou em tantos países”.

“Em vossos informes quinquenais, tomei conhecimento dos programas de educação nas paróquias, escolas e associações; e vossas próprias intervenções sobre questões de interesse comum estão, de fato, difundindo uma cultura católica mais forte”, afirmou.

O pontífice recordou que a 2ª Assembleia Especial para o Sínodo dos Bispos da África, realizada recentemente, “foi memorável em seu convite a renovar esforços no serviço de uma evangelização mais profunda do vosso continente”.

Depois, sublinhou que “o poder da Palavra de Deus e o conhecimento e amor de Jesus só podem transformar as vidas das pessoas, melhorando sua maneira de pensar e agir”.

O Papa deu vários conselhos aos bispos da Uganda: “Continuai a clamar por uma paz duradoura assente na justiça, na generosidade para com os que se encontram em necessidade e no espírito de diálogo e reconciliação”, indicou.

“Enquanto promoveis um verdadeiro ecumenismo, estai especialmente próximos dos que são mais vulneráveis ao avanço das seitas”, continuou.

E acrescentou: “Levai-os a rejeitar sentimentos superficiais e uma pregação que esvaziasse da sua potência a cruz de Cristo”.

Também pediu aos bispos que continuem apoiando todos os que ajudam os refugiados e órfãos procedentes das áreas afetadas pela guerra, assim como os que cuidam dos pobres e doentes.

Por outro lado, indicou a importância de que os bispos deem testemunho da solidariedade prática, de maneira que as dioceses com mais recursos ajudem as que têm menos.

E recordou que todas as comunidades devem lutar pela autossuficiência e que os católicos devem desenvolver um senso de responsabilidade que os torne sensíveis também às necessidades da Igreja universal.

No começo da audiência, o Papa recordou os atingidos pela recente avalanche de terras na região ugandense de Bududa.

“Ofereço orações ao Todo-Poderoso, Pai de todas as graças, para que conceda o eterno descanso às almas dos falecidos e dê fortaleza e esperança a todos os que estão sofrendo as consequências deste trágico acontecimento”, disse.

Por outro lado, pediu atenção e guia paternal com relação aos sacerdotes. “Exortai-os a rezar e vigiar, especialmente no que diz respeito a ambições egoístas, mundanas ou políticas, ou um apego à família ou ao grupo étnico”, disse.

Pediu aos prelados que sempre apoiem os religiosos e religiosas na Uganda, assim como os catequistas, cuidando da sua formação.

E concluiu seu discurso destacando os modelos de “grande valentia e resistência no sofrimento” que representam os beatos mártires ugandenses.





Papa envia a “confortadora” bênção apostólica ao povo chileno

Bachelet agradece à Igreja por sua solidariedade após o terremoto

SANTIAGO, sexta-feira, 5 de março de 2010 (ZENIT.org). – O Papa abençoou o povo chileno, afetado pelo forte terremoto de sábado, em uma mensagem enviada ao presidente da Conferência Episcopal do Chile, Dom Alejandro Goic Karmelic.

“Invocando a proteção de Nossa Senhora do Carmo, envio de coração a confortadora Bênção Apostólica, como sinal de afeto para com o amado povo chileno”, assinala o Pontífice.

Em sua mensagem, Bento XVI expressa seu “profundo pesar pela dolorosa notícia do terremoto, que deixou numerosas vítimas, feridos e provocou grandes danos materiais”.

“Ofereço minhas orações pelo eterno descanso dos falecidos, e elevo fervorosas súplicas ao Senhor para que conceda consolo aos atingidos por tão enorme desgraça, e que inspire em todos sentimentos de esperança cristã e de solidariedade fraterna”.

“Exorto a comunidade eclesial, as instituições civis e todas as pessoas de boa vontade a prestarem ajuda, neste momento difícil, com espírito generoso e solícita caridade”, acrescenta o Papa.

Dom Alejandro Goic Karmelic foi recebido, juntamente com o arcebispo de Santiago, cardeal Francisco Javier Errázuriz, pela presidente da República Michelle Bachelet, no Palácio de la Moneda, sede da presidência do Chile.

Segundo um comunicado divulgado pela Conferência episcopal chilena, durante a reunião os três concordaram que “este é um momento de união e solidariedade acima de tudo, porque a pátria é uma só e precisa da boa vontade e solidariedade de todos”.

O presidente da Conferência episcopal destacou que embora a Igreja tenha perdido muitos templos e locais sagrados, “o que mais preocupa são os templos vivos que são as pessoas, pessoas que sofrem agora com a dor de terem perdido seus entes queridos”.

O arcebispo de Santiago, cardeal Francisco Javier Errázuriz, afirmou que “como povo, devemos permanecer unidos e apoiar os irmãos que sofreram mais”.

A presidente do Chile agradeceu à Igreja católica por seu apoio e pela ajuda espiritual e moral às pessoas e famílias afetadas pela tragédia, bem como pela campanha solidária conduzida pelas diversas paróquias do país em colaboração com a rede Cáritas.

“Como sempre, a Igreja Católica está trabalhando, colaborando e ajudando a comunidade de diversas maneiras, o que agradeço em nome do governo”, declarou Bachelet.

O terremoto afetou oito das 27 dioceses chilenas, causando a morte de mais de 800 pessoas e deixando 500 mil desabrigados, segundo a rede Cáritas.

A organização mantém três centros de operações em Concepción para distribuir ajuda aos sobreviventes.

De acordo com Lorenzo Figueroa, secretário geral da Cáritas do Chile, a resposta da rede em todo mundo em face ao ocorrido foi “rápida e efetiva”.

“Não se trata apenas de ajuda material”, mas “também de apoio aos sobreviventes, o que faz uma diferença real. Foi oferecida esperança às pessoas”, explicou Figueroa.





Sacerdotes devem ajudar a viver a novidade da graça

Primeira pregação de Quaresma do padre Cantalamessa ao Papa e Cúria

ROMA, sexta-feira, 5 de março de 2010 (ZENIT.org).- Uma atribuição dos sacerdotes é ajudar os fiéis a viverem a novidade da graça, o que distingue o cristianismo das outras religiões. Foi o que afirmou nesta sexta-feira o padre Raniero Cantalamessa OFMCap, em sua primeira pregação de Quaresma perante o Papa e a Cúria Romana.

Dando prosseguimento ao tema iniciado em suas pregações de Advento, o frade franciscano enfocou o sacerdote como dispensador dos mistérios de Deus.

Refletindo à luz de 1 Coríntios 4, 1, o pregador da Casa Pontifícia abordou duas tarefas essenciais do sacerdote no Novo Testamento: o anúncio do Evangelho e a administração dos sacramentos.

“Por muitos séculos, a função do sacerdote esteve reduzida quase exclusivamente ao seu papel de liturgo e de sacrificador: ‘oferecer sacrifícos e perdoar os pecados’. Foi com o Concílio Vaticano II que se evidenciou, para além da função cultual, a função de evangelizador.”

Aprofundando então na novidade substancial do ministério da Nova Aliança a respeito da Antiga, o capuchinho chamou a atenção para a oposição entre letra e Espírito, de que falava o apóstolo Paulo. “A letra é, portanto, a lei mosaica escrita sobre tábuas de pedra e, por extensão, toda lei positiva exterior ao homem; o Espírito é a lei interior, escrita sobre os corações”.

E esta “lei nova, ou do Espírito, não é, no sentido estrito, aquela proferida por Jesus no monte das bem-aventuranças, mas sim aquela infundida por ele nos corações em Pentecostes”.

“Os apóstolos são a prova viva disso”, porque “haviam escutado da viva voz de Jesus todos os preceitos evangélicos” e “somente após a vinda do Espírito é que podemos vê-los completamente esquecidos de si mesmos e comprometidos unicamente em proclamar as grandes obras de Deus”.

“Mas como age, concretamente, esta lei nova que é o Espírito?”, perguntou Cantalamessa. “Age através do amor! A lei nova nada mais é do que aquilo a que Cristo chamou de ‘um mandamento novo’”.

“O Espírito Santo escreveu a nova lei em nossos corações, infundindo nestes o amor. Este amor é o amor com o qual Deus nos ama e com o qual, contemporaneamente, faz com que nós o amemos e nos amemos uns aos outros. É uma capacidade nova de amar.”

“O amor, portanto, é uma lei, ‘a lei do Espírito’, no sentido de que cria no cristão um dinamismo que o leva a realizar tudo o que Deus deseja, espontaneamente, porque fez de sua a vontade de Deus e ama tudo o que Deus ama.”

Segundo o pregador da Casa Pontifícia, Jesus “afirma não ter vindo para ‘abolir a lei’, mas ‘para dar-lhe cumprimento’. E qual é o ‘cumprimento’ da lei? O pleno cumprimento da lei é o amor. Do mandamento do amor – diz Jesus – dependem toda a lei e os profetas”.

Padre Cantalamessa abordou então a atualidade do pensamento de São Paulo e Santo Agostinho, segundo os quais “para salvar-se, não basta a natureza, o livre arbítrio ou o direcionamento da lei: é necessária a graça, isto é, é necessário Cristo”. Isso “é exatamente o que distingue hoje o cristianismo das outras religiões”.

“As formas se alteraram, mas a substância é a mesma. ‘Obra da lei’, ou obra do homem, é qualquer prática humana, quando a essa se condiciona a própria salvação, seja esta concebida como comunhão com Deus, seja como comunhão consigo mesmo e com as energias do universo. O pressuposto é o mesmo: Deus não se doa, é conquistado!”

“Cada religião humana ou filosofia religiosa começa dizendo ao homem como proceder para ser salvo: os deveres, as obras – sejam obras exteriores ou caminhos especulativos em direção ao próprio interior – o Tudo ou o Nada.”

O cristianismo, por sua vez – prossegue o pregador –, “não começa dizendo ao homem como proceder, mas comunicando o que Deus fez por nós. Jesus não começou a pregar dizendo ‘Convertam-se e creiam no Evangelho para que o Reino venha até vós’; ao contrário, começou dizendo: ‘O Reino de Deus está entre vós: convertei-vos e crede no Evangelho’. Não primeiro a conversão e depois a salvação, mas primeiro a salvação e depois a conversão”.

“Não é difícil explicar o porquê da dificuldade em admitir a ideia de graça e de sua recusa instintiva por parte do homem moderno. Salvar-se ‘pela graça’ implica em reconhecer a dependência de cada um e isso se mostra muito difícil”, afirmou.

“A rejeição do cristianismo em certos níveis de nossa cultura ocidental, quando não é rejeição à Igreja e aos cristãos, é rejeição à própria graça.”

Daí a tarefa dos sacerdotes “de ajudar os irmãos a viver a novidade da graça, que é como dizer a novidade de Cristo”.

Isso “não significa falar sempre e só do Cristo do kerygma ou do Cristo do dogma, quer dizer, transformar as pregações em lições de cristologia. Significa ‘recapitular tudo em Cristo’ (Ef 1,10), fundar todo dever nele, fazer servir cada coisa ao objetivo de levar os homens ao ‘sublime conhecimento de Cristo Jesus Senhor nosso’ (Fil 3, 8)”.







Na pastoral dos ciganos: integração, mas sem homologação

Afirma o secretário-geral dos bispos europeus no Vaticano

Por Mirko Testa

ROMA, sexta-feira, 5 de março de 2010 (ZENIT.org).- A Igreja deve desenvolver uma pastoral específica para os ciganos, promover ações educativas para aprofundar no conhecimento, segundo disse nesta terça-feira o Pe. Duarte da Cunha, secretário-geral do Conselho das Conferências Episcopais da Europa (CCEE), no Encontro dos Diretores Nacionais da Pastoral dos Ciganos na Europa, realizado até ontem no Vaticano, com o título: “Solicitude da Igreja com os ciganos: situação e perspectivas”.

No início de sua intervenção, o secretário-geral do CCEE destacou os inúmeros preconceitos e temores ligados aos ciganos, nascidos frequentemente da ignorância, mas algumas vezes das suas atitudes, que levam à sua marginalização.

No entanto, advertiu, “se viver isolado não é bom, não significa que se deva ser completamente absorvido pela cultura dominante. Na verdade, no entanto, muitas medidas promovidas pelos diversos entes públicos têm tendência homologadora”.

“Concebe-se o ‘diferente’ como um problema e se prefere afastá-los ou forçá-los a serem como todos os demais”, disse.

Neste âmbito, a Igreja Católica tem “a possibilidade de integrar o diferente, com culturas e inclusive tradições e ritos próprios, em uma mesma unidade de amor, na qual cada comunidade possa manter e reavivar sua identidade própria”.

Falando depois das questões centrais, tratou do tema da educação: “Sem certa instrução e sem a ajuda de escolas, será difícil romper com o círculo de pobreza que, no entanto, não significa romper com o estilo de vida tradicional”.

“Em muitos casos, constatou-se que a pobreza pode ser vencida com uma maior instrução, sem que por isso haja uma negação das tradições”, afirmou.

No entanto, é justo, no respeito ao princípio de subsidiariedade, defender “a liberdade e a responsabilidade dos pais, que são também os mais competentes para educar no amor. Portanto, toda ajuda educativa, como as escolas, deve estar sempre em conformidade com os princípios e valores dos pais e da sua tradição”.

No que se refere à educação e formação na fé, o secretário-geral afirma que “as paróquias podem e devem empreender ações especiais”.

O Pe. Duarte convidou a fugir de “uma lógica de assistencialismo” para “promover, também no campo da pastoral, a colaboração com os próprios cidadãos, especialmente com alguns dos seus líderes”.

“Há uma linguagem, uma forma de agir e uma estrutura hierárquica que devem ser respeitadas se se pretende verdadeiramente ajudar sem absorver”, explicou.

“Será interessante que haja vocações consagradas entre os ciganos, ou catequistas e líderes cristãos”, acrescentou.

Também é importante ter “sacerdotes, religiosos e outros agentes pastorais dedicados exclusivamente a eles”, dotados de “entusiasmo contagioso” e desejosos de entrar na vida concreta do grupo através de “uma sincera amizade”.

Isso não significa, no entanto, deixar tudo por conta da improvisação e, pelo contrário, no respeito ao itinerário de cada paróquia, é preciso que “os pastores (...) estejam atentos a todas aquelas pessoas que estão em trânsito ou que adquirem uma moradia permanente e são de uma etnia específica”.

O Pe. Duarte sublinhou a “grande sensibilidade religiosa” desses povos, ligada frequentemente “ao profundo sentido de família e de relação com os antepassados”, capaz, portanto, de oferecer “uma perspectiva de vida na qual Deus não é remetido a um céu distante”.

Por isso, o secretário-geral destacou a importância de valorizar e alimentar a religiosidade dos ciganos, organizando peregrinações, com o apoio dos santuários.

No que se refere aos aspectos ligados à celebração litúrgica, acrescentou: “A Igreja deveria ser capaz de inculturar-se, sem criar fantasias litúrgicas”; e então, “por que não integrar alguns aspectos da cultura cigana nas celebrações das quais eles participam, como, por exemplo, o uso de instrumentos musicais?”.

“Em alguns países, isso já foi feito com grande êxito – concluiu. E terá mais razão de ser nas ocasiões especiais, das quais toda a família participa, como o batismo das crianças ou os funerais.”





Mundo



Cáritas: não à exploração do trabalho doméstico

Pede pela mesma proteção legal dada aos demais trabalhadores

ROMA, sexta-feira, 5 de março de 2010 (ZENIT.org). – A Cáritas Internacional exortou os governos e a comunidade internacional a defender os imigrantes da exploração – em especial as mulheres – que trabalham como domésticas, babás ou cuidadoras.

Aqueles que desempenham trabalhos domésticos - afirma a entidade em um comunicado – são frequentemente vítima de abusos e raramente se beneficiam de “qualquer tipo de proteção legal”.

Tais abusos, reconhece, “podem ser difíceis de identificar, visto que o posto de trabalho é uma casa particular”.

Neste contexto, a Cáritas pede que os trabalhadores domésticos em geral possam gozar da mesma proteção legal garantida aos demais trabalhadores.

“Para além dos riscos de abuso, os trabalhadores domésticos podem não ter acesso a uma proteção adequada em termos de seguridade social”, lembrou Martina Liebsch, diretora de políticas da Cáritas Internacional. “Muitos temem receber represálias por parte de seus patrões por se queixarem às autoridades, e acabam se submetendo à condição de verdadeiros escravos modernos”.

A Organização Internacional do Trabalho (OIT), órgão da ONU responsável pela definição de padrões internacionais de condições de trabalho, realizará em junho deste ano uma convenção para analisar a questão dos trabalhadores domésticos em nível mundial.

A Cáritas pede que sejam estabelecidas cláusulas específicas para os imigrantes envolvidos no trabalho doméstico, dado que seu trabalho e sua residência estão ambos ligados a um patrão.

A organização exorta ainda a criar mecanismos para representar os interesses dos trabalhadores domésticos, e um esquema de compensação que seja independente de seu status legal.

O trabalho doméstico, acrescenta, “deve ser regulado mediante a criação de agências que atuem na intermediação das relações entre empregadores e empregados”.

Tais estruturas possibilitariam “assegurar que os padrões trabalhistas estabelecidos sejam respeitados, bem como a qualidade dos trabalhos desempenhados”.

Finalmente, a Cáritas pediu que sejam criados canais para a migração legal dos que buscam trabalho em outros países.







Igrejas buscam acordo para a Europa oriental

Católicos e ortodoxos debatem estratégias de reconciliação entre países

VARSÓVIA, sexta-feira, 5 de março de 2010 (ZENIT.org). – Representantes da Igreja ortodoxa russa e da Igreja católica na Polônia reuniram-se na semana passada na capital polonesa para debater estratégias de reconciliação entre os dois países, conforme divulgado em um comunicado do Departamento de Relações Exteriores do Patriarcado de Moscou.

De acordo com o texto, a reunião, realizada na quinta-feira e sexta-feira passadas, possibilitou “debater uma possível participação das Igrejas na construção de relações amistosas entre os povos da Polônia, Rússia, Ucrânia e Bielorrússia”.

O encontro foi celebrado a convite do arcebispo Jozef Michalik de Przemysl, presidente da Conferência dos Bispos da Polônia, e do metropolitano Savva, de Varsovia e de toda a Polônia, líder da Igreja ortodoxa na Polônia.

Os participantes debateram medidas para o fortalecimento das relações entre os países do leste europeu.

Foi decidido pelo estabelecimento de uma comissão de trabalho que será responsável pela elaboração de um documento sobre a reconciliação destes países, destacando a contribuição das igrejas nestes esforços.

Foi proposta também a formação de uma comissão bilateral para debater temas para o diálogo futuro.

O comunicado assinala ainda que “ambas as partes destacaram a importância histórica da iniciativa e das conversações, que constituem o primeiro passo na direção da aproximação das Igrejas locais e da reconciliação de nossas nações”.

“As duas Igrejas” – conclui o comunicado – “contam com a ajuda da Providência Divina e da intercessão da Santíssima Mãe de Deus”.





Entrevistas



Como nasceu o livro “História de uma amizade”

Entrevista com o editor do livro de Wanda Poltawska sobre Karol Wojtyla

Por Renzo Allegri

ROMA, sexta-feira, 5 de março de 2010 (ZENIT.org). – O livro “História de uma amizade”, no qual a médica polonesa Wanda Poltawska narra a história de sua amizade com Karol Wojtyla, já se tornou um “best seller”.

Na Polônia, onde foi publicado no início do ano passado, o livro é um grande sucesso; a edição italiana, lançada a pouco mais de um mês, já se encontra esgotada, e deve logo ganhar uma reimpressão. As edições francesa, espanhola, inglesa e brasileira estão em preparação, e devem chegar às livrarias em breve.

O sucesso na Itália é extraordinário se levarmos em consideração a quase ausência de publicidade associada ao seu lançamento. A pouca atenção dada ao livro pela mídia polonesa concentrou-se em explorar, em um tom sensacionalista, a história da amizade de Karol Wojtyla com uma mulher, que perdurou por anos e envolveu diversas trocas de cartas, incluindo durante o período de seu papado.

Um livro que se destaca claramente dentre os inúmeros livros que tratam de Karol Wojtyla. E que só poderia ter sido escrito pela doutora Wanda Poltawska, porque nenhuma outra mulher viveu a aventura de poder considerar Karol Wojtyla como um membro de sua própria família e de conhecê-lo tão intimamente.

As acusações de que Poltawska teria sido imprudente ao publicar seu livro, arriscando comprometer o processo de beatificação, são desmentidas pelo padre Tomazs Lubas, diretor do escritório polonês das Edições São Paulo, responsável pela primeira edição do livro.

Para ele, Dra. Poltawska agiu na verdade com louvável prudência e sabedoria. Sua motivação de publicar este livro este livro decorre de um desejo do próprio João Paulo II, que teve a oportunidade de ler o manuscrito integral e aprovou todo o texto, até o último capítulo. Mas antes de entregar o manuscrito ao editor, a Dra. Poltawska certificou-se, junto às autoridades eclesiásticas, de que o livro não ofereceria nenhum obstáculo ao processo de beatificação.

Padre Tomazs Lubas, como nasceu a idéia deste livro?

Padre Lubas: O primeiro “input” foi dado pelo próprio Santo Padre João Paulo II, ao escrever a Wanda Poltawska em uma carta, datada de 20 de outubro de 1978: “Gostaria que fizesse aquela seleção de textos, da qual lhe falava, e que o resto simplesmente destrua. Mas a seleção deve ser feita com critério, por que há páginas maravilhosas...”. Mais tarde, em 1983, o Santo Padre, durante um almoço com a Dra. Poltawska e Dom Jozef Michalik, recomendou a Wanda: “Você deve escrever estas memórias”. Como disse Wanda Poltawska em várias ocasiões, todo e texto foi lido e aprovado por João Paulo II.

Soube da existência do livro há alguns anos. Porém, conhecia apenas o título, e nada sabia sobre seu conteúdo. O título em polonês é "Beskidzkie Rekolekcje" (“Exercícios espirituais nos Montes Beskidy”). Para Wanda Poltawska, cada carta de Karol Wojtyla é uma relíquia. Por isso, num primeiro momento, recebemos apenas fotocópias das cartas. Como algumas das cópias ficaram ruins, e a Dra. Queria um livro “bonito”, conseguimos convencê-la a disponibilizar os originais. O resultado final agradou a autora.

Qual foi sua impressão ao ler o manuscrito?

Padre Lubas: Imediatamente percebi que o texto era uma “bomba”, em diversos aspectos, e que mostrava um João Paulo II verdadeiramente “inédito”. Por um lado, fiquei encantado com a profunda amizade e o carinho espiritual que Karol Wojtyla nutria por toda a família Poltawski; por outro, fiquei também maravilhado com a intimidade da família Poltawski para com João Paulo II.

O senhor se convenceu de imediato de que o livro deveria ser publicado?

Padre Lubas: Diante de um texto do gênero, não pode haver muitas dúvidas. Para mim, era óbvio que a Editora São Paulo da Polônia deveria publicar o livro, que representa um farol para iluminar a alma de João Paulo II. Além disso, nossa editora é responsável pela publicação de todos os livros da Dra. Poltawska – que atualmente já são 8.

Havia alguma dúvida apenas em relação ao momento mais adequado para publicá-lo, de modo a não interferir no processo de beatificação. Uma vez obtida a confirmação de que o livro não afetaria o processo, Wanda Poltawska, em fevereiro de 2009, deu “sinal verde” para a sua publicação.

Quais foram as principais razões que levaram a Dra. Poltawska a publicar o livro?

Padre Lubas: Como escreveu o padre Adam Boniecki na revista católica polonesa Tygodnik Powszechny”, “um livro como esse sobre João Paulo II ainda estava por vir”. Creio que esta é a melhor resposta sobre o porquê da publicação. Um livro como esse ainda não havia sido escrito porque ninguém mais poderia tê-lo escrito. Não publicar o livro significaria esconder toda aquela história extraordinária da parte humana de João Paulo II, que jamais ficaria conhecida.

Do livro podemos saber ainda de alguns fatos a respeito da figura da Dra. Wanda Poltawska, como por exemplo a história de sua cura milagrosa de um câncer, em 1962, obtida mediante a intercessão do Papa Pio, por solicitação de Karol Wojtyla, que na época era ainda um jovem bispo.

É verdade que, antes da publicação, foi solicitada uma autorização prévia junto à Conferência Episcopal da Polônia?

Padre Lubas: Não se trata de uma “autorização prévia”, mas apenas de uma medida para evitar confusões. Antes da publicação do livro, Wanda Poltawska pediu a opinião de 10 pessoas consideradas por ela dignas de confiança. Entre estas pessoas estavam dois arcebispos, um dos quais era Dom Jozef Michalik, presidente da Conferência Episcopal polonesa, que mais tarde viria a escrever um belo prefácio de 6 páginas.

Obtidos os pareceres favoráveis destas 10 pessoas, e imbuída da certeza de que não criaria polêmica na Igreja com sua obra, a Dra. Poltawska decidiu finalmente confiar o manuscrito ao editor, isto é, a mim. Depois de alguns adiamentos, ficou acertado que o material todo me seria entregue em 7 de agosto de 2008, na Cracóvia. Mais tarde, ao ler o livro, fiquei sabendo que, exatamente 30 anos antes, no mesmo dia, Karol Wojtyla deixava seu lar à beira do rio Wislok para “sair para o mundo”, e jamais retornar a este lugar.

Há uma outra coincidência interessante: o dia em que o livro foi oficialmente apresentado na Sala Plenária da Conferência Episcopal da Polônia, 17 de janeiro de 2009, corresponde ao aniversário da prisão de Wanda Poltawska pela Gestapo.

Sabe-se que o livro suscitou também algumas críticas na Polônia. Eram previstas?

Padre Lubas: Eu já supunha que um texto assim tão forte pudesse suscitar algumas críticas. Mas estava convencido, por outro lado, de que seria difícil criticar o livro. Nos primeiros meses que se seguiram à publicação, foram levantadas uma série de boatos, suposições e acusações, mas não críticas verdadeiras. Mais tarde, com a publicação da edição italiana, mais uma vez os críticos exploraram as mesmas acusações, sustentando que o livro representaria uma ameaça à beatificação de João Paulo II. Mas, ao contrário, a publicação de “Beskidzkie Rekolekcje” motivou inúmeras cartas de agradecimento, por parte do público, recebidas pela Dra. Poltawska e por nossa editora.







UNESCO: política e religiões diante do futuro

Entrevista com Dom Follo sobre o debate organizado pela comunidade de São João

Por Anita Sanchez Bourdin

PARIS, sexta-feira, 5 de março de 2010 (ZENIT.org).– O Studium da Comunidade São João organizou um debate sobre “Política e religiões diante do futuro”, na sede da UNESCO de Paris, nos dias 19 e 20 de março.

Ele fará “dialogar as sabedorias religiosas, em particular a sabedoria cristã e a sabedoria filosófica”, destaca o observador permanente de Santa Sé na UNESCO. Dom Francesco Follo, nesta entrevista com a Zenit.

-Qual é a questão de fundo deste debate, que conta com o duplo patrocínio da UNESCO – está prevista a intervenção da sua diretora geral, Irina Bokova – e do Conselho Pontifício da Cultura?

Dom Francesco Follo: Uma pequena afirmação preliminar: não podemos esquecer a especificidade da situação do homem no mundo. O homem é o único ser do universo que faz parte de dois “mundos”: o dos corpos e o dos espíritos, aberto à transcendência.

Seria preciso formar, então, a consciência das pessoas para compreender e viver, para ver em si mesmas e respeitar nos demais a complexidade da experiência da liberdade.

Também seria preciso encontrar e propor as motivações e os instrumentos para que o homem “religioso” e o homem “político”, ou melhor, a dimensão religiosa e a dimensão política do homem vivam juntas, na esfera privada e na esfera da relação comunitária, social (de indivíduo a indivíduo, de indivíduo a sociedade).

Finalmente, seria preciso educar e formar o cidadão nesta dimensão completa que Jacques Maritain chamou de “humanismo integral”.

Para alcançar este objetivo, o simpósio fará que as sabedorias religiosas dialoguem, particularmente a sabedoria cristã e a sabedoria filosófica.

Dessa maneira, haverá uma verdadeira cooperação entre políticos, filósofos, teólogos e religiosos, para uma teoria e uma prática do bem comum.

-O senhor fala do “bem comum”... Um dos principais oradores será o cardeal Peter Turkson, presidente do Conselho Pontifício “Justiça e Paz”: o ensinamento social tão rico da Igreja Católica se dirige a todas as culturas?

Dom Francesco Follo: Eu daria duas respostas aqui. A primeira vem dos fatos, da realidade da existência.

Os mártires cristãos, que dão testemunho do seu compromisso com Deus e com os homens até consequências extremas, unem-se ao compromisso de todos os homens. Já se disse que “as encíclicas foram escritas com o sangue dos mártires”.

Para que o Evangelho entre em uma cultura, deve encontrar o caminho do homem, penetrando nas diferentes culturas, inclusive arriscando a vida dessas testemunhas que são os mártires, mártires “para” os demais e não contra os demais.

Assim, a doutrina social da Igreja se converte na voz dos que não têm voz: fala-se de “opção preferencial pelos pobres”. O sujeito da doutrina social da Igreja é a própria humanidade.

A segunda resposta também vem da história. Com a encíclica Centesimus Annus (1991), a universalidade da doutrina social da Igreja deu um passo a mais.

O Papa João Paulo II destacou que milhões de pessoas, com seu compromisso, inspiraram a doutrina social da Igreja.

Ao longo da história, houve “um grande movimento pela defesa da pessoa humana e pela defesa da sua dignidade”, mas em colaboração com os crentes de outras religiões e com as pessoas de boa vontade.

Recentemente, o Papa Bento XVI, em sua encíclica social Caritas in veritate, recordou-nos que a caridade é universal e que é a principal força de propulsão de um verdadeiro desenvolvimento de cada pessoa e da humanidade inteira.

Esta caridade se baseia na verdade. De fato, uma caridade que não esteja fundamentada na verdade é um envoltório vazio que se preenche arbitrariamente (Caritas in veritate, n. 3).

Vou lhe dar um exemplo. Se um homem tem fome, não é difícil compreender o que é bom para esse homem: comer. Não é difícil saber o que é o bem desse homem: alimentar-se suficientemente.

Assim, à pergunta sobre o bem do homem, respondi com certeza: é a alimentação. Eu disse a verdade sobre o bem do homem.

Se eu, ao invés de alimento, dou roupa a um homem faminto, é porque não o amo de verdade, é porque não quero o seu bem. A “caridade na verdade” significa querer o bem do outro, verdadeiro e real.

-O cardeal André Vingt-Trois, arcebispo de Paris, presidente da Conferência Episcopal da França, presidirá a Eucaristia. Que lugar esta ocupa na realização do simpósio?

Dom Francesco Follo: Penso que a Missa foi pensada especialmente para destacar que o diálogo entre as pessoas deve estar arraigado no diálogo com Deus. Os dois diálogos não podem ser opostos; os dois têm sua justificação e sua necessidade teológica e espiritual.

A oração está na origem profunda do diálogo fraterno porque, graças a ela, posso pronunciar palavras que vêm de Deus. Ela também é o futuro das palavras fraternas, porque na palavra dirigida ao próximo já existe uma palavra a Deus.

-O debate pretende ser não somente intercultural, mas também inter-religioso: destaca a participação do grão-rabino Haïm Korsia, capelão geral israelense do Exército do Ar, e de M. Tareq Oubrou, teólogo, imame da mesquita de Bordéus. As três grandes religiões monoteístas tiveram uma relação muito diferente da política...

Dom Francesco Follo: Assim vemos como as religiões e as culturas asiáticas e africanas também têm algo a dizer neste encontro, cujo objetivo é oferecer uma contribuição para a “governança”.

Depois das diferentes crises (política, econômica, financeira) que o mundo atravessou e 30 anos depois do discurso de João Paulo II na UNESCO, o Studium São João quis destacar as contribuições da filosofia e das religiões para a governança sobre questões de atualidade, como as relações entre justiça e paz, o lugar dos pobres na sociedade, a luta pela dignidade humana, a tensão entre a lógica do bem e a busca da lógica financeira, econômica e política, e a responsabilidade com relação à família humana.

-Como filósofo, que mediação o senhor acha que a reflexão filosófica representa no diálogo das culturas?

Dom Francesco Follo: O cristianismo é a religião do Logos. Assim, no diálogo, os cristãos devem estar atentos para permanecer fiéis a esta orientação: viver uma fé que vem do logos, da razão criadora e que, portanto, está aberta a tudo o que é realmente racional, o que é cultura.

“A” cultura é um acontecimento, mais do que um dom acabado. Eu não tenho a pretensão de contribuir para a cultura do amanhã.

É suficiente abrir os olhos e os ouvidos, no entanto, para perceber que não só as grandes culturas têm um valor universal, mas inclusive as que dialogam entre si na obra dos grandes artistas.

Homero não escreveu somente para os gregos, mas para todos nós. Shakespeare não escreveu somente para os ingleses, mas para todos nós. A Bíblia não foi composta somente para um pequeno povo do Oriente Médio ou para alguns grupos de cristãos, mas para todos.

A universalidade é a pretensão das culturas, a “interculturalidade”, o ritmo normal de pertença a uma cultura, e o ritmo normal da vida da cultura.

Somos realistas; o diálogo intercultural é um diálogo que conduzimos em paz conosco e no qual constatamos todos os frutos em nós mesmos.

Podemos chegar mais longe o tema e dizer que a “interculturalidade” é um fato, antes que um dever a ser cumprido. Ela não espera que formemos o conceito, para ser inscrita em toda cultura um pouco rica.

Nós estamos aqui na situação dos que constatam, escrevem a história e querem, evidentemente, que o futuro seja fiel ao passado.

Estamos também, poderíamos dizer, na situação dos garantidores: se é necessário que as grandes obras do Oriente sejam traduzidas a línguas ocidentais, será preciso ajudar os tradutores e editores.

Mas, assim como a UNESCO não inventou a cultura nem a definiu, tampouco criou “a interculturalidade” nem a definiu, e pode estar satisfeita por desempenhar a função de ajudar.

Assim será fiel à sua definição. E permita-me repetir que é no respeito à verdade, à singularidade, como servimos com mais fidelidade as cidades, em plural, as culturas, em plural, e também à cultura, em singular.

-Como definir o diálogo para chegar realmente a dialogar?

Dom Francesco Follo: O diálogo não é somente uma troca de ideias; deve ser sempre uma troca de dons (cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, constituição dogmática Lumen Gentium, 13).

Existe diálogo quando alguma das duas partes “sai” de si mesma, quando se abre à diversidade, que é alteridade, tendo como consequência a “troca” de temas, sua “transformação”.

Através do diálogo e como efeito do diálogo, sempre há uma abertura de horizontes.

Eu gostaria de terminar propondo-lhe uma imagem que resume o que estou dizendo: “Quando a borboleta chega, a flor se abre; quando a flor se abre, a borboleta chega”.





Espiritualidade



Ministros de uma nova aliança

Primeira pregação de Quaresma do padre Raniero Cantalamessa

CIDADE DO VATICANO, sexta-feira, 5 de março de 2010 (ZENIT.org).- Apresentamos a seguir a primeira pregação de Quaresma à Cúria Romana, realizada nesta sexta-feira, em presença do Papa, pelo padre Raniero Cantalamessa, OFMCap.



* * *

MINISTROS DE UMA NOVA ALIANÇA

O Senhor me concede ser testemunha da graça extraordinária que se revela pela Igreja neste ano sacerdotal. São incontáveis os retiros do clero que se realizam em várias partes do mundo, todos animados por um espírito novo e pela redescoberta da própria vocação. Um destes retiros, organizado em Manila pela Conferência Episcopal das Filipinas em janeiro passado, contou com a participação de 5.500 sacerdotes e 90 bispos. Foi, pelas palavras do cardeal de Manila, um novo Pentecostes. Durante um hora de adoração guiada, por convite do pregador, toda aquela imensa multidão de sacerdotes em vestes brancas gritou a uma só voz: “Lord Jesus, we are happy to be your priests”: “Senhor Jesus, estamos felizes por ser seus sacerdotes!”. E se via pelas expressões nos rostos que não eram apenas palavras.

Vivi a mesma experiência, embora com números muito reduzidos, com todo o clero da região de Sabah, na Malásia, em seguida em Cingapura e finalmente no Santuário de Loreto, com cerca de 200 bispos e sacerdotes italianos. Todos me pediram que transmitisse ao Santo Padre seu agradecimento e sua saudação, o que faço com alegria neste momento.

1. Os “mistérios” de Deus

A palavra de Deus que nos guia nestas reflexões para o Ano Sacerdotal é Coríntios 4, 1: “Si nos existimet homo, ut ministros Christi et dispensatores mysteriorum Dei”; “Que as pessoas nos considerem como ministros de Cristo e administradores dos mistérios de Deus”. Meditamos no Advento sobre a primeira parte desta afirmação: o sacerdote como servidor de Cristo, no poder e na unção do Espírito Santo. Resta-nos, nesta Quaresma, refletir a respeito da segunda parte: o sacerdote como dispensador dos mistérios de Deus. Naturalmente, o que dizemos do sacerdote é ainda mais válido para o bispo, que possui a plenitude do sacerdócio.

O termo “mistérios” tem dois significados fundamentais: o primeiro é de verdades ocultas e reveladas por Deus, os divinos propósitos anunciados veladamente no Antigo Testamento e revelados aos homens na plenitude dos tempos; o segundo é aquele de “sinais concretos da graça”, na prática, os sacramentos. A Carta aos Hebreus reúne estes dois significados na expressão: “os mistérios de Deus” (ta pros ton Theon, ea que sunt ad Deum); acentua o real significado ritual e sacramental, dizendo que a tarefa do sacerdote (o autor se refere aqui ao sacerdócio em geral, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento) é o de “oferecer dons e sacrifícos pelos pecados” (Hb 5,1).

Este segundo significado se afirma principalmente na tradição da Igreja. Santo Ambrósio escreve dois tratados sobre os ritos de iniciação cristã, vistos como o cumprimento de imagens e profecias do Antigo Testamento; um ele intitula de “De sacramentis” e o outro de “De mysteriis”, ainda que ambos tratem do mesmo argumento. Sabe-se, de resto, que o termo sacramentum não é mais que a tradução latina do termo mysterion.

Retornando à palavra do Apóstolo, o primeiro destes dois significados evidencia o papel do sacerdote a respeito da palavra de Deus, e o segundo, seu papel a respeito dos sacramentos. Juntos, delineiam a fisionomia do sacerdote como testemunha da verdade de Deus e como ministro da graça de Cristo, como anunciador e como sacrificador.

Por muitos séculos, a função do sacerdote esteve reduzida quase exclusivamente ao seu papel de liturgo e de sacrificador: “oferecer sacrifícos e perdoar os pecados”. Foi com o Concílio Vaticano II que se evidenciou, para além da função cultual, a função de evangelizador. Em linha com o que a Lumen gentium já havia afirmado sobre a função dos bispos de “ensinar” e “santificar”, a Presbyterorum ordinis escreve:

“Participando, a seu modo, do múnus dos apóstolos, os presbíteros recebem de Deus a graça de serem ministros de Jesus Cristo no meio dos povos, desempenhando o sagrado ministério do Evangelho, para que seja aceita a oblação dos mesmos povos, santificada no Espírito Santo (Rm 15, 16). Com efeito, o Povo de Deus é convocado e reunido pela virtude da mensagem apostólica […]. Com efeito, o seu ministério, que começa pela pregação evangélica, tira do sacrifício de Cristo a sua força e a sua virtude” [1].

Das três meditações de Quaresma, dedicaremos uma ao tema do sacerdote como ministro da Palavra de Deus, uma ao do sacerdote como ministro dos sacramentos, e uma mais existencial, à renovação do sacerdócio mediante a conversão ao Senhor.

2. A letra e o Espírito

A partir do século II nota-se uma tendência muito clara de moldar – nos requisitos, nos ritos, nos títulos, nas vestes – o sacerdócio cristão conforme o levítico do Antigo Testamento [2]; uma tendência que se cristalizará em documentos canônicos como as Costituzioni apostoliche, a Didascalia siriaca e outras fontes similares. É justamente tal assimilação externa que desperta, em ocasiões como esta, uma necessidade urgente de redescobrir a novidade e a alteridade substancial do ministério da nova aliança em relação à antiga. É a enérgica afirmação paulina que gostaria colocar no centro da presente meditação:

“Por nós mesmos, não somos capazes de pôr a nosso crédito qualquer coisa como vinda de nós; a nossa capacidade vem de Deus, que nos tornou capazes de exercer o ministério da aliança nova, não da letra, mas do Espírito. A letra mata, o Espírito é que dá a vida. Se o ministério da morte, gravado em pedras com letras, foi cercado de tanta glória que os israelitas não podiam fitar o rosto de Moisés, por causa do seu fulgor, ainda que passageiro, quanto mais glorioso não será o ministério do Espírito?” (2 Cor 3, 5-8).

O que o Apóstolo pretende ao opor a letra ao Espírito pode ser deduzido a partir do que escreve um pouco acima, ao falar da comunidade do Novo Testamento: “Todo o mundo sabe que sois uma carta de Cristo, redigida por nosso intermédio, escrita não com tinta, mas com o Espírito de Deus vivo, gravada não em tábuas de pedra, mas em tábuas que são corações humanos” (2 Cor 3, 3).

A letra é, portanto, a lei mosaica escrita sobre tábuas de pedra e, por extensão, toda lei positiva exterior ao homem; o Espírito é a lei interior, escrita sobre os corações, aquela que o Apóstolo define em outra passagem como “a lei do Espírito, que dá a vida no Cristo Jesus, te libertou da lei do pecado e da morte (cf. Rm 8, 2).

Santo Agostinho escreveu um tratado sobre nosso texto – o De Spiritu et littera – que é um marco na história do pensamento cristão. A novidade da nova aliança em relação à antiga, explica ele, reside no fato de que Deus não se limita mais a ordenar ao homem como deve ou não deve se portar, mas realiza ele mesmo com o homem e no homem aquilo que determina. “Onde a lei das obras impera com a ameaça, a lei da fé impetra com o crer... Com a lei das obras Deus diz aos homens: “Faça o que te ordeno”; com a lei da fé o homem diz a Deus: “dai-me o que me ordena” [3]

A lei nova que é o Espírito é muito mais que uma mera “indicação” de uma vontade; é uma “ação”, um princípio vivo e ativo. A lei nova é a vida nova. A oposição letra/Espírito equivale, em são Paulo, à oposição lei/graça: “não estais sob a Lei, mas sob a graça” (Rom 6,14).

Também na Antiga Aliança está presente a ideia de graça, no sentido de benevolência, favor e perdão de Deus (a hesed): “favoreço a quem quero favorecer” (Ex 33, 19); os salmos estão repletos de referências a este conceito. Mas agora a palavra graça, charis, adquiriu um significado novo, histórico: é a graça que provém da morte e ressurreição de Cristo e que justifica o pecador. Não mais apenas uma disposição benevolente, mas uma realidade, um “estado”: “Assim, pois, justificados pela fé, estamos em paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo. Por ele, não só tivemos acesso, pela fé, a esta graça na qual estamos firmes...” (Rm 5, 1-2).

João descreve a relação entre a antiga e a nova aliança do mesmo modo que Paulo: “a Lei foi dada por meio de Moisés, a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo” (Jo 1, 17).

Disso se deduz que a lei nova, ou do Espírito, não é, no sentido estrito, aquela proferida por Jesus no monte das bem-aventuranças, mas sim aquela infundida por ele nos corações em Pentecostes. Os preceitos evangélicos são certamente mais elevados e perfeitos que aqueles da lei mosaica; todavia, por si sós, também estes permaneceriam ineficazes. Se bastasse ter proclamado a nova vontade de Deus através do Evangelho, não seria possível explicar a necessidade de que Jesus tivesse morrido e que viesse o Espírito Santo; não se explica por que o Jesus de João faz com que tudo dependa de sua “elevação”, isto é, de sua morte na cruz (cf. Jo 7, 39; 16, 7-15).

Os apóstolos são a prova viva disso. Estes haviam escutado da viva voz de Jesus todos os preceitos evangélicos, por exemplo que “aquele que quiser ser o primeiro deve fazer de si o último e servo de todos”, mas até o final os vemos preocupados em estabelecer quem seria o maior dentre eles. Somente após a vinda do Espírito é que podemos vê-los completamente esquecidos de si mesmos e comprometidos unicamente em proclamar “as grandes obras de Deus” (cf. At 2, 11).

Assim, sem a graça interior do Espírito, também o Evangelho, o mandamento novo, teria permanecido lei velha, letra. Retomando um pensamento audacioso de Santo Agostinho, São Tomás de Aquino escreve: “pela letra entende-se qualquer lei escrita que permaneça externa ao homem, incluindo os preceitos morais contidos no Evangelho; de modo que também a letra do Evangelho mataria, se não se acrescentasse, por dentro, a graça da fé que cura”. Ainda mais explícito é o que está escrito um pouco antes: “A lei nova é principalmente a própria graça do Espírito Santo que é concedida aos que creem” [5].

3. Não por constrição, mas por atração

Mas como age, concretamente, esta lei nova que é o Espírito? Age através do amor! A lei nova nada mais é do que aquilo a que Cristo chamou de “um mandamento novo”. O Espírito Santo escreveu a nova lei em nossos corações, infundindo nestes o amor (Rm 5, 5). Este amor é o amor com o qual Deus nos ama e com o qual, contemporaneamente, faz com que nós o amemos e nos amemos uns aos outros. É uma capacidade nova de amar.

Não seria um contra-senso nos referirmos ao amor como uma “lei”? A esta pergunta deve-se responder que existem dois modos pelos quais o homem pode ser induzido a fazer ou não fazer algo: ou por constrição ou por atração. A lei exterior atua pelo primeiro modo, por constrição, com a ameaça de castigo; o amor atua do segundo modo, pela atração. De fato, cada um de nós é atraído por aquilo que ama, sem que se submeta a qualquer constrição exterior. O amor é como um “peso” da alma que a lança em direção ao objeto do próprio deleite, no qual sabe encontrar seu repouso [6]. A vida cristã é vivida por atração, não por constrição.

O amor, portanto, é uma lei, “a lei do Espírito”, no sentido de que cria no cristão um dinamismo que o leva a realizar tudo o que Deus deseja, espontaneamente, porque fez de sua a vontade de Deus e ama tudo o que Deus ama.

Qual o lugar, nos perguntamos, nesta economia do Espírito, da observação dos mandamentos? Também após a vinda de Cristo subsiste ainda a lei escrita: há os mandamentos de Deus, o decálogo, há os preceitos evangélicos; a estes foram acrescentados, em seguida, as leis eclesiásticas. Qual o significado do Código de Direito Canônico, dos regulamentos monásticos, dos votos religiosos e tudo o mais que, em suma, indica uma vontade objetivada que me é imposta do externo? Seriam tais coisas como que corpos estranhos ao organismo cristão?

Houve, no curso da história da Igreja, alguns movimentos que pensaram desse modo e que refutaram, em nome da liberdade do Espírito, qualquer lei, a ponto de serem chamados de movimentos “anomistas”, mas estes foram sempre rejeitados pela autoridade da Igreja e pela própria consciência cristã.

A resposta cristã a esse tipo de problema nos é dada pelo Evangelho. Jesus afirma não ter vindo para “abolir a lei”, mas “para dar-lhe cumprimento” (cf Mt 5, 17). E qual é o “cumprimento” da lei? “O pleno cumprimento da lei” – responde o Apóstolo – “é o amor!” (Rm 13, 10). Do mandamento do amor – diz Jesus – “dependem toda a lei e os profetas” (cf Mt 22, 40).

A obediência se torna, assim, a prova de que se vive sob a graça. “Se me amais, observareis os meus mandamentos” (Jo 14, 15). O amor, desse modo, não substitui a lei, mas a observa, “cumpre-a”. Na profecia de Ezequiel, atribuía-se precisamente ao dom futuro do Espírito do novo coração a possibilidade de observar a lei de Deus: “Porei em vós o meu espírito e farei com que andeis segundo minhas leis e cuideis de observar os meus preceitos” (Ez 36, 27). “A lei foi dada” – escreve Agostinho – “para que se buscasse a graça e a graça foi dada para que se observasse a lei”.

4. Atualidade da mensagem da graça

Concluímos assim a análise das consequências que a mensagem paulina referente à nova aliança pode ter sobre o modo de conceber e viver a vida cristã. Nesta ocasião, gostaria de destacar como este tema pode esclarecer a questão da evangelização do mundo atual e do diálogo inter-religioso, e, consequentemente, o papel do sacerdote como ministro da verdade de Deus.

Agostinho escreveu seu tratado La lettera e lo Spirito para combater a tese pelagiana, segundo a qual para salvar-se é suficiente que Deus nos tenha criado, dotado de livre-arbítrio e nos dado uma lei que indique sua vontade. Na prática, esta é a tese de que o homem pode se salvar por si mesmo e que a vinda de Cristo é, certamente, uma ajuda extraordinária, mas não indispensável para a salvação.

Pode-se discutir – e hoje se discute entre os estudiosos – se o santo teria interpretado corretamente o pensamento do monge Pelágio. Mas isso não deveria nos surpreender. Os Padres que combateram heresias explicitaram (de seu ponto de vista!) quais eram as implicações lógicas de uma certa doutrina, sem levar em consideração o ponto de vista ou a linguagem do adversário. Estavam mais preocupados com a doutrina do que com as pessoas, com a verdade dogmática do que com a verdade histórica. Agostinho, aliás, mostra-se mais respeitoso e cortês no trato com Pelágio do que, por exemplo, Cirilo de Alexandria em seus confrontos com Nestório.

A reavaliação moderna de autores como Pelágio e Nestório não significa de forma alguma uma reavaliação do pelagianismo ou do nestorianismo. Essa distinção contribuiu, em tempos recentes, para o restabelecimento da comunhão com as igrejas assim chamadas nestorianas ou monofisistas do oriente.

Tudo isso, no entanto, nos interessa relativamente. O que é importante ter em mente é que Agostinho tem razão a respeito do problema principal: para salvar-se, não basta a natureza, o livre arbítrio ou o direcionamento da lei: é necessária a graça, isto é, é necessário Cristo. Pensar diferente disso significaria torna supérflua sua vinda, e com ela também sua morte e ressurreição; significaria considerar Cristo um exemplo de vida, mas não “causa de salvação eterna para todos os que nele creem” (Hb 5, 9).

É sobre este ponto que o pensamento de Agostinho – e ainda antes dele o de Paulo – revela-se de uma extraordinária atualidade. Aquilo que, segundo a Apóstolo, distingue a nova da antiga aliança, o Espírito da letra, a graça da lei, feitas as devidas distinções, é exatamente o que distingue hoje o cristianismo de outra religião.

As formas se alteraram, mas a substância é a mesma. “Obra da lei”, ou obra do homem, é qualquer prática humana, quando a essa se condiciona a própria salvação, seja esta concebida como comunhão com Deus, seja como comunhão consigo mesmo e com as energias do universo. O pressuposto é o mesmo: Deus não se doa, é conquistado!

Podemos ilustrar a diferença da seguinte maneira. Cada religião humana ou filosofia religiosa começa dizendo ao homem como proceder para ser salvo: os deveres, as obras – sejam obras exteriores ou caminhos especulativos em direção ao próprio interior – o Tudo ou o Nada. O cristianismo, por sua vez, não começa dizendo ao homem como proceder, mas comunicando o que Deus fez por nós. Jesus não começou a pregar dizendo “Convertam-se e creiam no Evangelho para que o Reino venha até vós”; ao contrário, começou dizendo: “O Reino de Deus está entre vós: convertei-vos e crede no Evangelho”. Não primeiro a conversão e depois a salvação, mas primeiro a salvação e depois a conversão.

Também no cristianismo – como já recordamos – existem os deveres e os mandamentos, mas o plano dos mandamentos, incluído o maior de todos, que é o de amar a Deus e ao próximo, não é o primeiro plano, mas o segundo; o primeiro plano é o do dom, o da graça. “Nós nos amamos porque ele nos amou primeiro” (1 Jo 4,19). É do dom que decorre o dever, e não vice-versa.

Nós, cristãos, não entraremos em diálogo com outras confissões afirmando a diferença ou a superioridade de nossa religião; tal postura representaria a própria negação do diálogo. Insistiremos, alternativamente, nos aspectos que nos unem, nos objetivos comuns, reconhecendo para os outros o mesmo direito (ao menos subjetivo) de considerar sua própria fé como a mais perfeita e a definitiva. Sem esquecer, de resto, que aquele que vive com coerência e boa fé uma religião das obras e da lei é melhor e agrada mais a Deus do que alguém que pertença à religião da graça, mas se priva completamente seja de crer na graça, seja de cumprir as obras da fé.

Tudo isso não deve, entretanto, nos induzir a “colocar entre parênteses” nossa fé na novidade e na unicidade de Cristo. Não se trata tampouco de afirmar a superioridade de uma religião sobre as demais, mas de reconhecer a especificidade de cada uma, de saber quem somos e no que cremos.

Não é difícil explicar o porquê da dificuldade em admitir a ideia de graça e de sua recusa instintiva por parte do homem moderno. Salvar-se “pela graça” implica em reconhecer a dependência de cada um e isso se mostra muito difícil. É bem conhecida a afirmação de Marx: “um ser não se considera independente a menos que seja seu próprio senhor, e ele só o é quando deve sua existência a si próprio. Um homem que vive graças ao favor de outrem deve ser considerado um ser dependente [...]. Mas eu viveria completamente pela graça de um outro, se este houvesse criado minha vida, se este fosse a fonte de minha vida e esta não fosse minha própria criação” [8]. O motivo pelo qual se refuta um Deus criador é o mesmo pelo qual se refuta um Deus salvador.

Esta é a explicação dada por São Bernardo para o pecado de Satanás: este preferiu ser a mais infeliz das criaturas por mérito próprio, ao invés de ser a mais feliz pela graça de outro; preferiu ser “infeliz mas soberano”, ao invés de ser feliz mas dependente: misere praeesse, quam feliciter subesse [9].

A rejeição do cristianismo em certos níveis de nossa cultura ocidental, quando não é rejeição à Igreja e aos cristãos, é rejeição à própria graça.

5. “Nós pregamos Cristo Jesus Senhor nosso”

Qual é, neste tempo, a tarefa dos sacerdotes enquanto administradores dos mistérios de Deus e mestres da fé? O de ajudar os irmãos a viver a novidade da graça, que é como dizer a novidade de Cristo.

Jesus no Evangelho utiliza a expressão “os mistérios do Reino dos céus” para indicar todo seu ensinamento e, em particular, o que se refere a sua pessoa (cf. Mt 13, 11). Após a Páscoa se passa cada vez mais frequentemente do plural ao singular, dos mistérios ao mistério: todos os mistérios de Deus se resumem já no mistério que é Cristo.

São Paulo fala do “mistério de Deus, quer dizer, Cristo, em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento” (Col 2, 2-3). Convida-nos a pensar em Cristo como em um palácio, em que, conforme alguém adentra, vai de maravilha em maravilha. O universo material, com todas as suas belezas e sua incalculável extensão, é a única imagem adequada do universo espiritual que é Cristo. Não por nada este se fez “por meio dele e para ele” (Col 1,16).

O apóstolo assinalou com mais clareza que ninguém o centro e o coração do anúncio cristão e o expressou de forma programática, a modo de manifesto: “Nós pregamos a Cristo crucificado” (1 Cor 1, 23) e “nós não pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus Senhor nosso” (2 Cor 4,5). Estas palavras justificam plenamente a afirmação segundo a qual o cristianismo não é uma doutrina, mas uma pessoa.

Mas o que significa, na prática, pregar a “Cristo crucificado” ou “Cristo Jesus, Senhor nosso”? Não significa falar sempre e só do Cristo do kerygma ou do Cristo do dogma, quer dizer, transformar as pregações em lições de cristologia. Significa “recapitular tudo em Cristo” (Ef 1,10), fundar todo dever nele, fazer servir cada coisa ao objetivo de levar os homens ao sublime conhecimento de Cristo Jesus Senhor nosso” (Fil 3, 8).

Jesus deve ser o objeto formal, não necessariamente e sempre o objeto material, da pregação, o que a “informa”, o que lhe dá fundamento e dá autoridade a qualquer outro anúncio, a alma e a luz do anúncio cristão. “Árido é todo alimento da alma – exclama São Bernardo – se não está regado com este sal. O que escreves não tem sabor – non sapit mihi – se não palpita dentro o coração de Jesus” [10].

Na liturgia das horas em língua alemã, o Stundengebet, há um hino (Laudes de terça-feira da segunda semana) que me ficou querido desde o primeiro momento em que o recitei. Começa assim: Göttliches Wort, der Gottheit Schrein, für uns in dein Geheimnis ein. “Verbo eterno, Deus vivo e verdadeiro, faz-nos penetrar em teu mistério”. A expressão “o mistério de Cristo” é a mais compreensiva de todas: recolhe em seu ser e no seu atuar sua humanidade e sua divindade, sua preexistência e sua encarnação, as profecias do Antigo Testamento e sua realização na plenitude dos tempos. Podemos repeti-lo com uma jaculatória: “Verbo eterno, Deus vivo e verdadeiro, faz-nos penetrar em teu mistério”

[Tradução de Paulo Marcelo Silva]

* * *


[Notas originais em italiano]

1) PO, 2.

2) Cf. J.-M. Tillard, “Sacerdoce”, in DSpir. 14, col.12.

3) Agostino, De Spiritu et littera, 13,22.

4) Tommaso d’Aquino, Summa theologiae, I-IIae, q. 106, a. 2.

5) Ibid., q. 106, a. 1; cf. Agostino, De Spiritu et littera, 21, 36.

6) Agostino, Commento al Vangelo di Giovanni, 26, 4-5: CCL 36, 261; Confessioni, XIII, 9.

7) Agostino, De Spir. et litt. ,19,34.

8) C. Marx, Manoscritti del 1844, in Gesamtausgabe, III, Berlino 1932, p. 124 e Critica della filosofia del diritto di Hegel, in Gesamtausgabe, I, 1, Francoforte sul M. 1927, p. 614 s.

9) Bernardo di Chiaravalle, De gradibus humilitatis, X, 36: PL 182, 962.

10) Bernardo di Chiaravalle, Sermones super Canticum, XV, 6: Ed. Cistercense, Roma 1957, p.86.







Evangelho do domingo: a outra oportunidade

Por Dom Jesús Sanz Montes, ofm, arcebispo de Oviedo

OVIEDO, sexta-feira, 5 de março de 2010 (ZENIT.org).- Apresentamos a meditação escrita por Dom Jesús Sanz Montes, OFM, arcebispo de Oviedo, administrador apostólico de Huesca e Jaca, sobre o Evangelho deste domingo (Lucas 13, 1-9), 3º da Quaresma.

* * *

No Evangelho deste domingo, Jesus leva em consideração duas notícias da atualidade de então: um grupo de galileus, de alguma facção independentista, havia sido reprimido por Pilatos, para lição e castigo a todo aquele que ousasse atentar contra a ocupação romana. E em segundo lugar, a queda da torre de Siloé, cujo infortúnio causou a morte de 18 vítimas, que pereceram esmagadas.

Naquele então, como agora, houve muitas mortes, cujo desenlace nem sempre tem a ver com a vida que levavam normalmente. Jesus faz uma advertência: o verdadeiro risco de arruinar uma vida não está em um acidente infeliz ou em uma revolta repressiva, mas em não converter-se, isto é, em viver com o olhar e o coração distraídos, descentrados: “Se vós não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo”.

Para Jesus, fazer o papel de agitador revolucionário não supõe um motivo de diferença exemplar com relação aos demais galileus. E assumir o papel pacífico de transeunte, como ocorreu com as vítimas da torre de Siloé, tampouco torna as pessoas boas por sua neutralidade pacifista. Uns morrem na briga, outros no acidente. Todos igualmente pecadores, diz Jesus. Ele não elogia o guerrilheiro manifesto nem o pacífico cidadão anônimo, mas exalta quem dirige seu coração e tudo o que cabe nele a Deus. O que realmente importa para Jesus não é o que se faz ou se deixa de fazer, mas em nome de quem e por qual motivo.

Jesus propõe uma parábola que enche de misericórdia seu convite à conversão. Diante da desproporção entre a vida a que somos chamados e a realidade nossa de cada dia, podemos ver-nos refletidos nessa história que Jesus conta da figueira que não dava o fruto esperado. É a imagem da nossa lerdeza e distância do desígnio de Deus. Mas também Jesus é imagem do vinhateiro bom, com cuja paciência chegará a salvar a vida da sua vinha.

Converter-se é aceitar esse cuidado, ess



Data :- 06/03/2010


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